A realidade imita uma ficção?

“…Éramos pessoas que não estávamos nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos, não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade. Vivíamos nas lacunas entre as matérias…” Margaret Atwood em seu livro “O conto da Aia”.

Uma ficção que me deu arrepios, pela coincidência do momento da leitura dessa grandiosa obra libertária com duas matérias que vimos na imprensa nesta última semana.

A primeira, uma parte do STF comete um erro de efeitos imprevisíveis, censurando a imprensa. A segunda, um juiz da 4ª Vara Criminal obriga o Google a entregar dados de TODAS as pessoas que tenham pesquisado por algo relacionado com a vereadora executada Marielle Franco, dias antes do assassinato.

No primeiro caso houve ataques e ofensas ao STF pelas redes sociais? Sim. Propagou-se o ódio na sociedade? Sim. Mas tudo isto não autoriza juiz nenhum do STF a mandar retirar do ar matérias publicadas na imprensa.

No segundo caso, a polícia que investiga o caso Marielle está com dificuldades para obter provas sobre quem matou e quem mandou matar a vereadora? Sim. Mas isto não autoriza delegado ou juiz nenhum a quebrar o sigilo de todos os que acessaram a Google para pesquisar sobre Marielle.

Eu nem lembro se pesquisei ou não. Mas se o fiz, foi depois do evento porque até então ela era uma ilustre desconhecida para mim. Ontem mesmo, fiz uma pesquisa sobre a biografia do ex-presidente peruano Alan Garcia, quando vi a notícia de que ele se suicidara, ao receber voz de prisão por uma operação semelhante à lava-jato brasileira.

Queria entender aquele ato de desespero. Se tinha relação com algum histórico de desequilíbrio emocional ou de desencanto.

Termino este meu comentário com mais uma frase do Conto da Aia:

“…Essas canções não são mais cantadas em público, especialmente as que usam palavras como livre. São consideradas perigosas demais. Pertencem às seitas proscritas…”

Não podemos permitir que a realidade imita uma ficção, assim como ocorreu com a obra de Victor Hugo e a Catedral de Notre Dame.

Liberdade de opinião e privacidade são direitos fundamentais do homem.

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