Quem é o culpado?


A tendência natural do ser humano, em situações de stress, provocado por desastres ou catástrofes, é encontrar um culpado.

No caso da tragédia de Brumadinho, há duas correntes:

a) a primeira, que culpa a direção da empresa Vale e busca um ponto de conexão entre cada responsável e os crimes cometidos contra toda a forma de vida, em especial as mortes de centenas de seres humanos;

b) a segunda, que culpa a legislação e fala em aperfeiçoar as normas de licenciamento da exploração mineral.

Sem dúvida, esses “suspeitos” precisam estar na lista.

Porém, acompanhando hoje cedo a cobertura da Globonews sobre a ordem de evacuação, dada pelo Corpo de Bombeiros, para os moradores do centro da cidade de Brumadinho, pelo risco de estouro de outra barragem, reforcei a minha convicção do quão despreparados somos, como Nação, para ações de prevenção e de situações de emergência.

O poder público escora-se na legislação; as empresas de mineração (licenciadas e clandestinas) se escoram na relação promíscua com o poder público e na ignorância e omissão dos potenciais afetados; e os dependentes de emprego e renda vão empurrando com a barriga ou fechando os olhos para coisas que eles sabem que podem vir acontecer.

Por duas vezes (ontem e hoje) escutei alguém da cidade dizer em entrevista: “não é verdade que a barragem que estourou estava fora de operação”.

O presidente da Vale havia afirmado o contrário. Pra que denunciará, não é mesmo? “Manda quem pode; obedece quem tem juízo”.

Presenciei também hoje cedo o desabafo de um morador de lá, que dizia atônito: “recebemos a ordem de evacuação, mas não sabemos para onde ir e o que levar; e se realmente procede a ordem.”

Assisti também um vídeo gravado por um funcionário da Vale (que está circulando pelo WhatsApp) e que mostra o total despreparo desses funcionários, para se proteger da catástrofe, momentos antes da barragem vir abaixo.

Ou seja, supondo que a Vale tivesse um Plano de Emergência, funcionários e moradores não haviam sido treinados para a fuga, com segurança.

Onde estava o poder público (Federal e estadual) que não cumpria o seu papel de fiscalizador, além de regulador?

Ontem estavam os partidos e as lideranças partidárias e sociais, que não cumpriam o seu papel de fazer funcionar a legislação, mesmo com a terrível lição de Mariana?

Onde estava o Ministério Público, que não olhou para esses crimes que continuavam a ser cometidos, mesmo depois de Mariana?

Moral da estória: não apenas a Vale é culpada. Cada um tem um pedaço do seu rabo preso nessa tragédia!

Começar pelos responsáveis mais visíveis e diretos? Sim!

Mas, se ficarmos apenas na aplicação de multas, bloqueio de recursos, mudança de normas para licenciamento e a eventual punição de alguma pessoa física da direção da Vale, estaremos apenas tapando o sol com a peneira!

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